POR
WALTER C. WILLET e J. STAMPFER
Em
1992, o Departamento de Agricultura dos
Estados Unidos (USDA) apresentou
oficialmente o Guia da Pirâmide Alimentar,
com a intenção de ajudar o
público a fazer opções
dietéticas que manteriam a saúde
e diminuiriam o risco de doenças
crônicas.
As
recomendações logo ficaram
famosas: as pessoas deveriam diminuir o
consumo de gorduras e óleos, mas
comer de 6 a 11 porções diárias
de alimentos ricos em carboidratos complexos
- pão, cereais em flocos, arroz,
massas, etc. A pirâmide alimentar
também recomendava quantidades generosas
de verduras, legumes (inclusive a batata,
outra fonte abundante de carboidratos complexos),
frutas e laticínios, e pelo menos
duas porções diárias
do grupo das carnes e feijões, que
incluía a carne vermelha ao lados
das aves, peixes, nozes/castanhas, legumes
e ovos.
Mas,
mesmo quando a pirâmide estava sendo
construída, os nutricionistas já
sabiam há muito tempo que alguns
tipos de gordura são essenciais para
a saúde e podem diminuir o risco
de doenças cardiovasculares. Além
disso, os cientistas encontraram poucas
provas de que o maior consumo de carboidratos
é benéfico. Desde 1992, um
número crescente de pesquisas indica
que a pirâmide tem erros crassos.
Ao promover o consumo de todos os carboidratos
complexos e a exclusão de todas as
gorduras e óleos, a pirâmide
dá uma orientação errada.
Em síntese: nem todas as gorduras
fazem mal, e nem todos os carboidratos fazem
bem. Agora, o Centro de Promoção
e Política Nutricional do USDA está
reavaliando a pirâmide, mas não
se espera que essa revisão esteja
concluída antes de 2004. Nesse ínterim,
construímos uma outra pirâmide
que reflete melhor a compreensão
atual das relações entre alimentação
e saúde. Alguns estudos indicam que
pôr em prática as recomendações
da pirâmide revista pode diminuir
significativamente o risco de doenças
cardiovasculares.
A
ANTIGA PIRÂMIDE ALIMENTAR
Antiga
pirâmide alimentar concebida
pelo USDA tinha por objetivo transmitir
a mensagem "gordura é
ruim" e seu corolário
"carboidratos são bons".
Tais afirmações estão
sendo questionadas
Como
é que a pirâmide original teve
tantos erros? Em parte, os nutricionistas
foram vítimas do desejo de simplificar
exageradamente suas recomendações.
Os pesquisadores sabiam há décadas
que a gordura saturada - abundante na carne
vermelha e nos laticínios - aumentam
os níveis de colesterol do sangue.
O colesterol está associado a alto
risco de doenças cardiovasculares
(ataques cardíacos e outras enfermidades
causadas pelo bloqueio das artérias
do coração). Na década
de 60, estudos de alimentação
controlada, onde os participantes consumiam
dietas cuidadosamente prescritas durante
várias semanas, confirmaram que a
gordura saturada aumenta os níveis
de colesterol. Mas os estudos mostraram
também que a gordura poli-insaturada
- encontrada em óleos vegetais e
peixes - reduz o colesterol. Por isso as
diretrizes alimentares das décadas
de 60 e 70 enfatizavam a substituição
da gordura saturada pela poli-insaturada,
e não a exclusão total da
gordura. A duplicação subseqüente
do consumo de gordura poli-insaturada entre
os norte-americanos provavelmente contribuiu
muito para que os índices de doenças
cardiovasculares nos Estados Unidos durante
as décadas de 70 e 80 caíssem
pela metade.
RESUMO
Guia da Pirâmide
Alimentar
O Guia da Pirâmide
Alimentar do USDA, publicado em 1992,
recomendava às pessoas que
evitassem gorduras, mas que comessem
bastante alimentos ricos em carboidratos,
como pão, cereais em flocos,
arroz e massas. O objetivo era reduzir
o consumo total de gordura saturada,
que eleva os níveis do colesterol.
Alguns pesquisadores descobriram que
o consumo elevado de carboidratos
refinados, como o pão branco
e o arroz branco pode desequilibrar
gravemente os níveis de glicose
e insulina do corpo. Substituir esses
carboidratos por gorduras saudáveis
- mono ou poli-insaturadas - reduz,
na verdade, o risco de ter uma doença
cardíaca.
Agora os nutricionistas estão
propondo uma nova pirâmide alimentar
que incentiva o consumo de gorduras
saudáveis e cereais integrais
e recomenda que se evitem os carboidratos
refinados, a manteiga e a carne vermelha.
A
idéia de que se deve evitar a gordura
nasceu em grande parte de observações
de que os países ricos do Ocidente
têm alto consumo de gorduras e elevados
índices de doenças cardiovasculares.
Mas essa correlação limita-se
à gordura saturada. As sociedades
em que as pessoas consomem uma quantidade
relativamente grande de gorduras mono e
poli-insaturadas, em geral, tendem a ter
índices mais baixos de doenças
cardíacas [ver a ilustração
da próxima página]. Na ilha
grega de Creta, por exemplo, a dieta tradicional
contém muito azeite de oliva, rico
em gordura mono-insaturada, e peixe, fonte
de gordura poli-insaturada). Embora a gordura
constitua 40% das calorias dessa alimentação,
o índice de doenças cardíacas
das pessoas que a consomem é tão
baixo quanto o daquelas que adotam as dietas
tradicionais do Japão, onde a gordura
representa apenas de 8% a 10% das calorias.
Além disso, as comparações
internacionais podem ser enganosas: muitas
influências negativas sobre a saúde,
como o cigarro, inatividade física
e grandes quantidades de gordura corporal
também estão associadas à
riqueza do Ocidente.
Infelizmente,
muitos nutricionistas chegaram à
conclusão de que seria difícil
educar o público para essas sutilezas.
Resolveram transmitir uma mensagem simples
e clara: "Gordura faz mal." Como
a gordura saturada representa cerca de 40%
de todas as gorduras consumidas nos EUA,
o USDA considerou que defender uma alimentação
com baixo teor de gordura reduziria naturalmente
o consumo de gordura saturada. Logo essa
recomendação foi reforçada
pela indústria alimentícia,
que começou a vender biscoitos, salgadinhos
e outros produtos com baixo teor de gordura,
mas que costumavam ser cheios de adoçantes
como o xarope de milho, com alta concentração
de frutose.
A
NOVA PIRÂMIDE ALIMENTAR
proposta
pelos autores deste artigo faz uma
distinção entre tipos
saudáveis e prejudiciais de
gorduras e carboidratos. As frutas,
as verduras e os legumes ainda são
recomendados,
Quando
a pirâmide alimentar estava sendo
construída, o norte-americano típico
obtinha 40% de suas calorias da gordura,
cerca de 15% das proteínas e os restantes
45% dos carboidratos. Os nutricionistas
não queriam recomendar um consumo
maior de proteínas porque muitas
fontes de proteína, como a carne
vermelha, também são ricas
em gordura saturada. Portanto, o mantra
"Gordura faz mal" levou ao corolário
"Carboidratos fazem bem". As diretrizes
alimentares da Associação
Americana do Coração (American
Heart Association) e outros grupos recomendavam
que as pessoas obtivessem pelo menos metade
de suas calorias dos carboidratos e não
mais de 30% das gorduras. Esse limite de
30% ficou arraigado entre os nutricionistas,
a ponto de observadores sofisticados pensarem
que, de fato, pessoas com esse consumo de
gordura eram mais saudáveis que aquelas
com níveis mais altos. Mas nenhum
estudo demonstrou benefícios de longo
prazo que podem ser atribuídos diretamente
a uma alimentação com pouca
gordura. O limite de 30% de gordura foi
tirado do nada.
A
sabedoria dessa diretriz passou a ser mais
questionável ainda depois que alguns
pesquisadores descobriram que as duas principais
substâncias químicas condutoras
de colesterol - a lipoproteína de
baixa densidade (LDL - Low-Density Lipoprotein),
conhecida popularmente como "colesterol
ruim", e a lipoproteína de alta
densidade (HDL - High-Density Lipoprotein),
conhecida como "colesterol bom",
têm efeitos muito diferentes sobre
o risco de doenças coronárias.
Aumentar a proporção do colesterol
ruim em relação ao colesterol
bom no sangue eleva o risco, enquanto diminuir
essa proporção reduz o risco.
No início da década de 90,
estudos de alimentação controlada
mostraram que quando uma pessoa substitui
as calorias obtidas da gordura saturada
por uma quantidade igual de calorias derivadas
dos carboidratos, o nível do colesterol
ruim cai, mas o nível do colesterol
bom também cai. Como a proporção
entre o colesterol ruim e o bom não
é alterada, há somente uma
pequena redução no risco de
uma pessoa ter uma doença cardíaca.
Além disso, passar a consumir mais
carboidratos aumenta os níveis de
triglicérides (as moléculas
componentes da gordura) no sangue, provavelmente
por causa dos efeitos sobre o sistema endócrino
do corpo. Níveis elevados de triglicérides
também estão associados a
alto risco de doenças cardíacas.
Os
efeitos são mais intensos quando
uma pessoa passa da gordura mono ou poli-insaturada
para os carboidratos. Os níveis do
colesterol ruim se elevam, enquanto os níveis
do colesterol bom diminuem, piorando a proporção.
Mas substituir a gordura saturada tanto
por gordura mono-insaturada quanto poli-insaturada
melhora essa proporção, e
é de se esperar que diminua o risco
de doenças cardíacas. As únicas
gorduras que são significativamente
mais perniciosas que os carboidratos são
os ácidos graxos trans-insaturados
- as gorduras hidrogenadas - que são
produzidos pela hidrogenação
parcial de óleos vegetais líquidos,
o que faz com que eles se solidifiquem.
Encontradas em muitas margarinas, bolos,
biscoitos e frituras, as gorduras hidrogenadas
são particularmente ruins para a
saúde porque aumentam os níveis
de colesterol ruim e triglicérides,
ao mesmo tempo em que diminuem a quantidade
de colesterol bom.
COMPARAÇÕES
INTERNACIONAIS
revelam que o consumo total de gordura
é um indicador pobre de riscos
de doenças cardíacas.
O que importa é o tipo de gordura
consumida. Em regiões onde
gorduras saturadas tradicionalmente
compunham a maior parte da dieta (Leste
da Finlândia) os índices
de doenças cardíacas
foram mais altos que nas áreas
onde gorduras mono-insaturadas eram
mais apreciadas (como na ilha grega
de Creta). A alimentação
mediterrânea de Creta, baseada
no azeite de oliva, parece ser até
melhor para o coração
que a alimentação tradicional
do Japão, com baixos teores
de gordura.
O
Quadro Geral
MAS PARA AVALIAR exaustivamente os efeitos
que a alimentação tem sobre
a saúde, é preciso ir além
das taxas de colesterol e dos níveis
de triglicérides. Os alimentos que
consumimos podem causar doenças cardíacas
de muitas outras formas, inclusive elevando
a pressão sangüínea,
ou aumentando a tendência de formação
de coágulos no sangue. E outros alimentos
podem evitar as doenças cardíacas
de maneiras surpreendentes. Por exemplo:
os ácidos graxos ômega-3 (encontrados
em peixes e em alguns óleos vegetais)
podem reduzir a probabilidade de fibrilação
ventricular, a perturbação
do ritmo cardíaco que causa morte
súbita.
O
método ideal para avaliar todos esses
efeitos adversos e benéficos seria
realizar experimentos de larga escala onde
as pessoas recebessem aleatoriamente diferentes
tipos de dieta a ser seguida durante vários
anos. Devido às dificuldades práticas
e ao custo, foram realizados poucos estudos
desse tipo; a maioria girou em torno de
pacientes que já sofrem de doenças
cardíacas. Embora limitados, esses
estudos confirmaram os benefícios
de substituir a gordura saturada pela gordura
poli-insaturada, mas não por carboidratos.
A
melhor alternativa é fazer grandes
estudos epidemiológicos, onde dietas
de muitas pessoas sejam avaliadas periodicamente
e cujos participantes tenham um acompanhamento
que verifique o aparecimento de doenças
cardíacas e outras moléstias.
Um dos exemplos desse tipo de pesquisa é
o Estudo sobre a Saúde das Enfermeiras,
que começou em 1976 com o objetivo
de avaliar os efeitos dos anticoncepcionais
por via oral, mas que logo estendeu-se também
à nutrição. Nosso grupo
da Harvard acompanhou quase 90 mil mulheres
nesse estudo, que primeiro fez questionários
detalhados sobre a alimentação
em 1980; e, em 1986, mais de 50 mil homens,
que foram inscritos no Estudo sobre os Profissionais
da Saúde.
Depois
de ajustar a análise para levar em
conta o consumo de cigarros, a inatividade
física e outros fatores ameaçadores,
descobrimos que o risco de os participantes
terem doenças cardíacas sofria
grande influência do tipo de gordura
consumida na alimentação.
Comer gordura hidrogenada aumentou substancialmente
o risco, enquanto a gordura saturada aumentou-o
ligeiramente. Por outro lado, o consumo
de gorduras mono e poli-insaturadas diminuiu
o risco. Exatamente o previsto pelos estudos
de alimentação controlada.
Como esses dois efeitos se contrabalançaram,
o consumo geral maior de gordura não
levou a índices maiores de doenças
coronárias. Essa descoberta corroborou
um relatório de 1989 da Academia
Nacional de Ciências, que chegou à
conclusão de que o consumo total
de gordura, considerado isoladamente, não
estava associado ao risco de doenças
cardíacas.
E
as outras doenças que não
as cardiovasculares? Índices elevados
de câncer de mama, cólon e
próstata nos países ricos
do Ocidente levaram à crença
de que o consumo de gordura, e principalmente
de gordura animal, pode ser um fator de
risco. Mas grandes estudos epidemiológicos
mostraram pouca evidência de que o
consumo total de gordura ou o consumo de
tipos específicos de gordura durante
a meia-idade afetem os riscos de câncer
de mama ou do cólon. Alguns estudos
indicaram que o câncer de próstata
e o consumo de gordura animal podem estar
associados, mas felizmente não há
indícios de que os óleos vegetais
aumentem o risco de qualquer tipo de câncer.
Na verdade, alguns estudos sugeriram que
os óleos vegetais podem reduzir ligeiramente
esses riscos. Portanto, é razoável
tomar decisões sobre a gordura na
alimentação com base em seus
efeitos sobre as doenças cardiovasculares,
mas não sobre o câncer.
Obesidade
e Risco
FINALMENTE
É PRECISO considerar o impacto
do consumo de gordura na obesidade,
o problema nutricional mais sério
dos Estados Unidos. A obesidade é
um importante fator de risco em muitas
doenças, inclusive o diabetes
do tipo 2 (o diabetes surgido na vida
adulta), doenças cardiovasculares
e câncer de mama, do cólon,
dos rins e do esôfago. Muitos
nutricionistas acreditam que o consumo
de gordura contribui para o excesso
de peso porque a gordura contém
mais calorias por grama que as proteínas
ou os carboidratos. Além disso,
o processo de armazenar gordura alimentar
no corpo pode ser mais eficiente que
a conversão de carboidratos
em gordura corporal. Mas estudos recentes
de alimentação controlada
mostraram que essas considerações
não têm importância
na prática.
A
melhor maneira de evitar a obesidade
é limitar a quantidade total
de calorias, e não apenas as
calorias da gordura. Portanto, a questão
crítica é se a composição
de gordura na alimentação
de uma pessoa pode influenciar a sua
capacidade de controlar o consumo
de calorias.
Em
outras palavras: consumir gordura deixa
você com mais ou menos fome que comer
proteínas ou carboidratos? Há
muitas teorias sobre por que uma dieta seria
melhor que outra, mas foram feitos poucos
estudos de longo prazo a esse respeito.
Em experimentos aleatórios, as pessoas
que receberam dietas de baixo teor de gordura
tendem a perder alguns quilos durante os
primeiros meses, mas depois recuperam o
peso. Em estudos que duraram um ano ou mais,
as dietas de baixo teor de gordura não
levaram sempre a uma perda maior de peso.
A
melhor maneira de evitar a obesidade
é LIMITAR
A QUANTIDADE TOTAL DE CALORIAS,
e não
apenas das calorias derivadas das
gorduras
Agora vamos examinar os efeitos dos carboidratos
sobre a saúde. Os carboidratos complexos
consistem em longas cadeias de unidades
de açúcar como a glicose e
a frutose; os açúcares contêm
apenas uma ou duas unidades. Em função
da idéia de que os açúcares
não oferecem nada além de
"calorias vazias" - isto é,
não têm vitaminas, sais minerais
ou outros nutrientes - os carboidratos complexos
formam a base da pirâmide alimentar
do USDA. Mas os carboidratos refinados,
como o pão branco e o arroz branco,
são muito rapidamente decompostos
e transformados em glicose, o combustível
primordial do corpo. O processo de refinamento
produz uma forma de amido - que é
definido como um aglomerado de moléculas
de glicose - fácil de absorver, e
também elimina muitas vitaminas,
sais minerais e fibra. Portanto, esses carboidratos
aumentam muito mais os níveis de
glicose do sangue que os cereais integrais.
Os cereais integrais não perderam
a película protetora do grão,
muito rica em nutrientes.
Ou
então, pense na batata. Comer uma
batata cozida aumenta mais os níveis
de açúcar do sangue que consumir
a mesma quantidade de açúcar
refinado. Como a batata é composta
basicamente por amido, é rapidamente
metabolizada em glicose. O açúcar
refinado (sacarina), por sua vez, é
um dissacarídio composto por uma
molécula de glicose e uma molécula
de frutose. A frutose leva mais tempo para
ser convertida em glicose, daí o
aumento mais lento dos níveis de
açúcar do sangue.
Um rápido aumento do açúcar
no sangue estimula grande liberação
de insulina, o hormônio que dirige
a glicose para os músculos e para
o fígado. Em conseqüência,
a quantidade de açúcar cai
vertiginosamente, chegando às vezes
abaixo do mínimo indispensável.
Níveis elevados de glicose e insulina
podem ter efeitos negativos sobre a saúde
cardiovascular, aumentando os triglicérides
e diminuindo o HDL (o colesterol bom).
Em
nossos estudos epidemiológicos, descobrimos
que o consumo muito grande de amido derivado
de cereais refinados e batata está
associado ao risco muito grande de diabetes
do tipo 2 e doenças coronarianas.
Inversamente, o consumo maior de fibras
está relacionado ao risco menor dessas
doenças. É interessante notar
que o consumo de fibras não diminui
o risco de câncer de cólon,
uma hipótese que já teve seus
defensores.
Pessoas
inativas e com excesso de peso podem se
tornar resistentes aos efeitos da insulina
e, por isso, precisar de uma quantidade
maior desse hormônio para regular
o açúcar no sangue. Evidência
recente indica que a reação
metabólica adversa aos carboidratos
é substancialmente pior entre aqueles
que já têm resistência
à insulina. Essa descoberta pode
explicar a capacidade de camponeses asiáticos
e de outras regiões, que são
esbeltos e ativos, de consumir grandes quantidades
de carboidratos refinados sem ter diabetes
nem doenças cardíacas, enquanto
a mesma dieta adotada por uma população
mais sedentária pode ter efeitos
devastadores.
OS
EFEITOS DAS RECOMENDAÇÕES
da nova pirâmide alimentar sobre
a saúde foram avaliados por meio
do estudo dos índices de doenças
entre 67.271 mulheres do Estudo sobre
a Saúde das Enfermeiras e entre
38.615 homens do Estudo de Acompanhamento
dos Profissionais de Saúde. As
mulheres e os homens do quinto quintil
(os 20% cuja alimentação
era a mais próxima das recomendações
da pirâmide) tiveram índices
significativamente menores de doenças
cardiovasculares que os do primeiro
quintil (os 20% mais distantes das recomendações
da pirâmide). Mas as recomendações
dietéticas não tiveram
efeito nenhum sobre o risco de câncer.
Consumo
de Vegetais
O CONSUMO ELEVADO de verduras, legumes e
frutas talvez seja o aspecto menos controvertido
da pirâmide alimentar. A redução
do risco de câncer é um benefício
do qual se fala muito. No entanto, a maior
parte dessa evidência vem de estudos
de controle de caso, onde os pacientes com
câncer e selecionados para o controle
são interrogados a respeito de sua
alimentação. Esses estudos
retrospectivos são suscetíveis
a inúmeros equívocos, e as
descobertas recentes de grandes estudos
de projeção no futuro (como
o nosso) tenderam a mostrar pouca relação
entre o consumo total de verduras e frutas
e a incidência de câncer. No
entanto, alguns nutrientes específicos
das frutas, verduras e legumes podem oferecer
alguns benefícios; por exemplo, o
ácido fólico das verduras
pode diminuir o risco de câncer de
cólon e o licopeno encontrado no
tomate é capaz de minimizar o risco
de câncer de próstata.
A
importância de comer verduras, legumes
e frutas talvez seja a redução
do risco de doenças cardiovasculares.
O ácido fólico e o potássio
parecem contribuir para esse resultado,
que foi comprovado por vários estudos
epidemiológicos. O consumo inadequado
de ácido fólico é responsável
por riscos maiores de defeitos congênitos,
e o consumo insuficiente de luteína,
pigmento amarelo de vegetais, tem sido associado
a riscos maiores de catarata e degeneração
da retina. As frutas, legumes e verduras
também são a fonte primordial
de muitas vitaminas necessárias à
saúde. Portanto, há boas razões
para consumir as cinco porções
diárias recomendadas, mesmo que isso
tenha impacto insignificante sobre o risco
de câncer. Mas a inclusão da
batata na pirâmide do USDA não
se justifica; sendo composta principalmente
de amido, a batata não proporciona
os benefícios dos outros legumes
e verduras.
Outro
defeito da pirâmide do USDA é
não ter reconhecido as importantes
diferenças entre a carne vermelha
(carne de vaca, de porco e de carneiro)
e outros alimentos do grupo da carne e dos
feijões (aves, peixes, legumes, nozes/castanhas
e ovos) em seu impacto sobre a saúde.
O consumo muito grande de carne vermelha
tem sido associado ao risco maior de doenças
coronarianas, provavelmente devido a seu
elevado teor de gordura saturada e colesterol.
A carne vermelha também aumenta o
risco de diabetes do tipo 2 e câncer
de cólon. O elevado risco de câncer
de cólon pode estar relacionado em
parte aos carcinógenos formados durante
o cozimento e aos produtos químicos
encontrados em carnes processadas, como
o salame e o salsichão.
Um
outro problema da pirâmide do USDA
é que ela promove o consumo excessivo
de laticínios, recomendando o equivalente
a dois ou três copos de leite por
dia. Esse conselho costuma ser justificado
pelo teor de cálcio dos laticínios,
que supostamente previne a osteoporose e
as fraturas ósseas. Mas os maiores
índices de fraturas ósseas
são os dos países onde há
grande consumo de laticínios, e grandes
estudos de projeção no futuro
não mostraram risco menor de fraturas
entre aqueles que consomem grandes quantidades
de laticínios. O cálcio é
um nutriente essencial, mas é provável
que as quantidades necessárias à
saúde dos ossos tenham sido exageradas.
Além disso, não temos motivos
para supor que o consumo elevado de laticínios
seja seguro: em vários estudos, os
homens que consumiam grandes quantidades
de laticínios mostraram risco maior
de câncer de próstata, e as
mulheres que consumiam laticínios
em abundância mostraram índices
elevados de câncer ovariano. Embora
inicialmente se tenha suposto que a gordura
era o fator responsável, essa hipótese
não foi confirmada por análises
mais detalhadas. O elevado consumo de cálcio
propriamente dito parece mais claramente
relacionado ao risco de câncer de
próstata.
É
necessário fazer mais pesquisas para
determinar os efeitos dos laticínios
sobre a saúde. Mas, no momento, parece
imprudente recomendar o alto consumo.
Pirâmide
mais Saudável
EMBORA
A PIRÂMIDE alimentar do USDA tenha
se tornado um ícone da nutrição
na década passada, até
recentemente nenhum estudo avaliou a
saúde das pessoas que adotaram
suas diretrizes. É provável
que tenha alguns benefícios,
principalmente por causa do consumo
elevado de frutas, legumes e verduras.
E a redução do consumo
total de gordura tende a diminuir a
ingestão de gorduras saturadas
e gorduras hidrogenadas. Mas essa pirâmide
também pode levar as pessoas
a consumir menos gorduras insaturadas
saudáveis e mais amidos refinados,
de modo que os benefícios seriam
anulados pelos prejuízos.
Para avaliar o impacto total, usamos
o Índice de Alimentação
Saudável (HEI, em inglês),
uma tabela criada pelo USDA para medir
a adoção da pirâmide
e das diretrizes alimentares que a acompanham
nos programas federais de nutrição.
A partir dos dados coletados em nossos
grandes estudos epidemiológicos,
calculamos os pontos de cada participante
no HEI e depois examinamos a relação
desses pontos com o risco subseqüente
das principais doenças crônicas
(definidas como ataque cardíaco,
derrame, câncer, morte não-traumática
por qualquer causa).
Homens
e mulheres seguindo os critérios
da NOVA PIRÂMIDE
correram risco menor de ter as principais
doenças crônicas